TNT e o quase suicídio
Odeio arqueologistas, esse papo todo de procurar relíquias escondidas e foi uma dessas malditas velharias que fizeram Mark Evans chegar aqui em Styx. Dunbar Tickner era um livro que continha feitiços de teletransporte e então Mark decidiu vir para cá, ele poderia ter ido para Paris, Londres, Trinidad e Tobago mas não, Styx era mais interessante. Aqui haviam as melhores relíquias.
Ainda me lembro como aquele ardiloso rapaz deu fim a todo meu plano perfeito. Tinha tudo pra dar certo, se não fosse a sua incrível necessidade de ser o heroi. Bracelete asqueroso... acabou com toda minha vingança. Mark Evans e sua pulseirinha da justiça. Aqui no plano etéreo, onde estou por que explodi, muitas almas condenadas por ele gostariam de se vingar. Nem mesmo meus inimigos do Iraque, de onde vim, conseguiram me deixar com tanta raiva como aquele homem “revirador de poeira”.
Eu odiava meu dono, eu tinha razões para isso. Aquele caipira gostava de todos os animais da nossa fazendo na ilha de Styx, até do Gaylor, um crocodilo gay que ele chamava de Dilinho. Ele me achava feio e me mantinha como animal de estimação pelo puro prazer de me irritar. Entre as poucas palavras que eu entedia daquele ser humano que parecia ter um pregador no nariz, eu sabia que ele tinha raiva por eu não servir nem para um ensopado por que eu era puro osso. E o pior é que eu não era o patinho feio que virou cisne depois. Eu explodi depois.
Estava tudo arranjado. Eu tinha aberto o botijão de gás e sim isso não foi nada fácil usando as patas, mas meu treinamento no Iraque foi muito útil e sem querer me gabar, sou um guerrilheiro nato. Espalhei também os fósforos no chão e escrevi um bilhete que joguei pela janela para não queimar, assinado por Ron, meu dono fanhoso idiota. Era a vingança perfeita. Um dia eu ia ter que explodir, então que fosse por uma boa causa. Eu ainda matava aquele roceiro.
Ele abriu a porta e faltavam dez segundos para o TNT, que é a única tecnologia de dinamite existente em 1920, entrar em ação e levar nós dois pro inferno. Ele estava com Gaylor, que frequentava nossa casa, pois era muito dócil. Eu sentia por ele participar da nossa festa de dinamite, mas se aquele era o preço pra ver o Ron morto, eu pagaria, até por que uma alma não sente mesmo muito peso na consciência.
- Quem é que manda agora em caipira fanho desengonçado. Vai dar explicações fanhas pro diabo agora. – Foram minhas últimas palavras.
Mark estava fazendo escavações em Styx naquela época e quando viu o fogo pensou em chamar, mas com todo seu espírito de herói, ele se arriscou adentrando as chamas e ainda conseguiu tirar meu dono de lá. Ron estava debilitado, mas vivo! E eu mal percebi, mas já observava a cena daqui do plano etéreo. Quando encontraram o bilhete, os detetives tiveram a certeza de que fora uma tentativa de suicídio.
Gaylor também conseguiu sair e desde daquele momento começou a atormentar Evans que tinha pesadelos com crocodilos, via espíritos de crocodilos nas ruas, só achava fósseis de crocodilos em suas escavações e então percebeu que aquele crocodilo tinha algo a dizer.
Mark não agüentava mais aqueles tormentos, queria tirar aquelas miragens da cabeça e não sabia como.
- Mas a cada dez coisas que eu penso 11 são crocodilos, isso foi algum tipo de praga?!
E foi num sonho que Evans se viu dando vida a um crocodilo com o bracelete e teve a maravilhosa ideia de tirar a vida do meu dono para dá-la ao crocodilo. Ele não sabia se aquilo funcionária. Mas seguindo seu senso de justiça pensou:
- Ele tentou se matar e está quase conseguindo o que queria. Está em mal estado no hospital e esse crocodilo fica me atormentando. Eu tenho que colocar um ponto final nisso.
Mark Evans passou a noite no hospital com meu dono e tirou todo seu sopro de vida. No outro dia Mark foi até Hemmett Hetfield e passou todo aquele sopro de vida para o crocodilo. Foi a primeira vez que não seguiu os comandos do bracelete que o dizia para não fazer aquela troca. Seguiu seus ímpetos e se arrependeu.
Como o sopro de vida passado para o crocodilo era humano, ela adquiriu a habilidade de falar e então, esclareceu as coisas.
- Poxa Mark você é muito lindo e aqueles policiais altos fortes quase me levaram a loucura. Mas eu tenho que dizer que o que vocês têm de encantadores têm também de burros. Meu dono deixou um bilhete de suicídio certo?
Mark abismado por nunca ter visto algo tão surreal em sua vida e olha que ele já vira muitas coisas, além de ter um bracelete que ultrapassava os limites da realidade, nunca imaginou levar uma cantada de crocodilo e apenas pôde responder:
- Sim, ele deixou um bilhete.
- Errado! – Respondeu o crocodilo indignado – Ele é um roceiro analfabeto, e obviamente tudo isso foi forjado. E ele realmente não queria morrer. Foi aquele pato que planejou tudo.
Mark saiu correndo para o mais longe que conseguiu. À beira-mar da bela ilha caminhou e percebeu que aquele bracelete tinha sido um presente, mas agora havia se tornado uma maldição. Com uma bússola encontrou o marco zero da ilha de Styx e cavou o quanto pode para enterrar e abandonar o bracelete.
Após ter visto um crocodilo gay falando, um pato-bomba assassino e principalmente carregar a culpa da imprudência de ter usado o bracelete sem ouvir a intuição do objeto e matado uma pessoa, achou que havia ficado louco e se internou. Saiu em todos os jornais que ele foi para o hospício de Cliff Burton e de lá não pretendia sair.
Porém uma noite, em mais um sonho, onde viu crianças sendo mortas de forma cruel e bandidos impunes, percebeu que só uma imprudência não deveria ser a causa do desperdício de algo tão maravilhoso, então, Mark Evans saiu do luto e voltou a ativa.
A fazenda de Ron foi reformada e virou um zoológico, já que o caipira fanho não tinha parentes.
E eu estou aqui, vendo o Mark pagando de heroizinho escondido de novo e se gabando por ser uma pessoa tão boa. Ainda que eu não tenha matado meu dono com as minhas próprias mãos, ele morreu. E Evans, bem, ele sabe o quanto a consciência vai o torturar por muito tempo.
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